Eu não imaginei que refletiria sobre isso da forma que irei discorrer, mas aconteceu. Já adianto aqui que o que trato no post é algo bem específico, não sei se a argumentação embasada na experiência própria a fim de impedir ou induzir algo pode ser ou não prejudicial em outros casos, contudo no caso que trato aqui, tende a ser prejudicial.
A “experiência própria” envolve poder de influência, em casos mais gerais, que é outro assunto bastante interessante. E na “experiência própria” podemos adicionar duas figuras bastante influentes: pais e professores. No entanto podemos adicionar qualquer outra figura.
Se um professor, por exemplo, faz uma afirmação para seus alunos embasado em sua experiência própria, é bem possível que os alunos deem atenção. Se um pai faz o mesmo com seu filho, também é possível que o filho dê atenção. E a razão é simples: todos nós damos importância, em algum momento, à afirmação de alguém que já viveu ou presenciou algo que ainda faremos. Portanto uma afirmação vinda de alguém com experiência, ainda que limitada por ser “própria”, nos é relevante.
Até este ponto, sem problema algum. Mas podemos imaginar diversas situações em que estas experiências sejam aplicadas, por exemplo:
Imagine que um professor, num curso de informática, diga aos alunos: “Não sei por que vocês têm aula de cálculo. Vocês não usarão cálculo para programar.” É certo que alguns alunos perderão o interesse pela disciplina de cálculo só de escutar o professor de programação falando isso. Já se ele afirma isso embasado em sua própria experiência, dizendo que tem conhecimento na área há décadas e que o mercado de trabalho não desenvolve softwares que precisem de cálculo como conhecimento, o número de alunos que perderão o interesse pela disciplina será ainda maior.
Por que será maior? Explico: cálculo já é visto por muitos como uma disciplina difícil, quem entra num curso de programação interessado apenas em sair de lá programando já não entenderá a razão de haver cálculo no curso, agora o professor mais importante do curso ainda trata de fazer uma afirmação dessas, evidente que os alunos ficaram descrentes com a utilidade do cálculo.
Isto lhe parece interessante? Quantos alunos terminarão o curso e nunca usarão cálculo? O professor sabe quantificar isso? Ele conhece cada aluno e é capaz de traçar o futuro profissional de cada um a partir do que ele vê na sala de aula? Não. Portanto a experiência própria é própria mesmo. É exclusiva dele e de mais ninguém e baseado em sua experiência ele não pode querer aplicá-la a todos e, mesmo que não intencionalmente, limitar o campo de interesse dos alunos.
Por essa razão a “experiência própria” envolve influência. Num caso mais comum, a pessoa poderia escutar e ponderar. Tirar suas conclusões sabendo que mesmo que talvez ela não use cálculo enquanto profissional, cálculo é um conhecimento que pode lhe ser útil para outras finalidades. Mas em casos como este, creio que seja natural que o ouvinte dê atenção ao que é dito, pois o professor é um orientador, é quem o aluno possui naquele momento para imaginar como será daqui para frente ou como será depois de concluído o curso.
Se bem abstraído, imagino que o exemplo que citei possa ser aplicado em outras situações. A experiência própria é interessante, porém única. Não se pode aplicar a sua experiência na vida ou na atitude de outrem, os caminhos não são os mesmos.
Acho que isso que você falou, não se aplica só a experiencia própria, como a todo conselho que você dá sendo uma pessoa mais experiente para que uma pessoa menos experiente faça algo, envolve sua capacidade de ser imparcial, mostrar os fatos de forma imparcial e deixar que o seu “aluno decida.”
Deixar que o seu “aluno decida” foi um ponto interessante. Em muitos casos quando ouvimos o conselho de alguém que já viveu aquela experiência ele só nos agrega informação e deixamos a decisão por conta do que nós queremos. Mas em casos de pessoas mais influentes, como professores, eu vejo uma situação mais complicada, que acaba fazendo com que alguns alunos reflitam menos e aceitem mais o que lhes é transmitido.
Se mudássemos de posicionamento de acordo com o que cada pessoa tem a dizer sobre determinados assuntos com base na experiência pessoal, ficaríamos loucos.
De fato. Felizmente nós julgamos as pessoas e refletimos sobre ser válida ou não aquela experiência. Mas a experiência de algumas pessoas, ainda que invalida ou incoerente para certa ocasião, acaba pesando mais pra quem a escuta por ter toda uma história ou algo que possa ser considerado importante. Aí, toda a ideia que o ouvinte poderia construir sozinho, de acordo com suas particularidades e suas expectativas, acaba sendo barrada pela adoção de uma experiência já adquirida e considerada mais confiável, já que quem a conta já vivenciou.